Email no Microsoft 365: o que a proteção de base não apanha

Atualizado a 12 de outubro de 20267 min de leitura

A segurança do email no Microsoft 365 vem ligada de origem, mas foi desenhada para apanhar o que é claramente lixo: spam, vírus conhecidos, links já identificados como perigosos. Os ataques que hoje custam dinheiro às empresas portuguesas são outros. Chegam bem escritos, muitas vezes de uma caixa de correio legítima, e pedem uma coisa banal — pagar uma fatura ou “confirmar a sua palavra-passe”.

Segundo dados do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) divulgados em 2026, o CERT.PT registou 3.864 incidentes em 2025, mais 40% do que no ano anterior. A fraude por email que se faz passar por um administrador ou fornecedor valeu, sozinha, 18% dos incidentes de engenharia social notificados.

O que a proteção de base faz — e o que não consegue fazer

O filtro do Microsoft 365 é bom naquilo para que foi feito: compara cada mensagem com o que já se sabe ser perigoso. Um vírus conhecido fica retido; um servidor de spam conhecido nem chega à caixa de entrada.

O que não consegue avaliar é a intenção. Um email enviado da conta real de um fornecedor a dizer “mudámos de banco” passa todos os testes técnicos: não tem vírus nem link suspeito, e vem de onde diz que vem.

Ataque 1: a fatura com o IBAN alterado

É o ataque mais caro e o mais simples: o criminoso entra na caixa de correio de um fornecedor (ou da sua própria empresa), lê as conversas durante semanas e espera por uma fatura grande. Nesse momento, responde no mesmo fio de conversa: “Atenção, a partir deste mês o pagamento deve ser feito para o novo IBAN em anexo.”

Variante frequente: um domínio com uma letra trocada. À pressa, ninguém repara.

O que trava este ataque não é tecnologia sofisticada. É uma regra escrita: nenhuma alteração de dados bancários é aceite por email. Confirma-se sempre por telefone, para um número que já estava na ficha do fornecedor — nunca para o que vem na mensagem. Explicámos o processo completo no artigo sobre fraude por email e faturas alteradas.

Ataque 2: a página falsa do Microsoft 365

Chega um email a dizer que há “um documento partilhado consigo” ou que “a sua caixa de correio está cheia”. O link abre uma página igual ao ecrã de entrada do Microsoft 365, com o logótipo e as cores certas. A pessoa escreve o email e a palavra-passe. Pronto: o criminoso tem a conta.

O passo seguinte é discreto: uma regra na caixa de correio que reencaminha para fora as mensagens com “fatura” ou “pagamento”, ou as esconde numa pasta que ninguém abre. É assim que nasce o ataque 1, a partir da sua própria empresa.

Em linguagem simples: a autenticação multifator é o segundo cadeado. Mesmo que alguém fique com a palavra-passe, precisa também do telemóvel do colaborador para entrar. É a medida que, sozinha, mais reduz o roubo de contas.

Ataque 3: o anexo ou o código QR

Como os filtros analisam cada vez melhor os links, os atacantes mudaram de formato: um PDF com um código QR “para assinar o documento”, uma imagem em vez de texto, um anexo protegido por palavra-passe que o filtro não consegue abrir.

O código QR leva a pessoa a abrir o link no telemóvel pessoal, fora das proteções da empresa. A página que se abre é, quase sempre, outra versão do ataque 2.

O que trava estes ataques

Nenhuma destas medidas exige comprar uma marca específica: são configurações do Microsoft 365 e regras internas.

Medida Que ataque trava Em linguagem simples
Autenticação multifator em todas as contas 2 e 3 Palavra-passe roubada deixa de chegar para entrar.
Bloquear o reencaminhamento automático para fora 1 e 2 Uma conta comprometida não consegue enviar os seus emails, em silêncio, para o exterior.
SPF, DKIM e DMARC no seu domínio 1 Quem receber um email falso “da sua empresa” consegue detetá-lo e rejeitá-lo.
Confirmação por telefone de dados bancários 1 Nenhum IBAN muda por email. Ponto final.
Formação curta e regular 1, 2 e 3 As pessoas reconhecem o padrão: urgência, segredo, link para “confirmar”.

Reencaminhamentos: não deixe a decisão ao sistema

No Microsoft 365, a política que controla o reencaminhamento automático para endereços externos vem, por defeito, em modo “automático, controlado pelo sistema”. A própria Microsoft recomenda definir explicitamente se está ligado ou desligado, porque o comportamento pode variar entre organizações. Para a maioria das PME, a resposta certa é desligado, com exceções aprovadas caso a caso.

SPF, DKIM e DMARC, explicados sem jargão

São três registos técnicos no seu domínio que provam que um email “da sua empresa” é mesmo da sua empresa.

Em linguagem simples: o SPF é a lista de quem está autorizado a enviar emails em seu nome. O DKIM é um selo que prova que a mensagem não foi alterada pelo caminho. O DMARC diz a quem recebe o que fazer quando algo não bate certo — rejeitar, pôr em quarentena ou só avisar — e envia-lhe relatórios de quem anda a usar o seu nome.

A Microsoft é clara: usar só uma parte destes métodos resulta numa proteção insuficiente. Faz-se por fases: primeiro inventariar todos os serviços que enviam email em seu nome (faturação, newsletter, CRM), depois apertar a política. Feito à pressa, o DMARC pode bloquear as suas próprias faturas.

A base de tudo é a autenticação multifator em todas as contas. E antes de comprar o que quer que seja, confirme que funções de segurança já inclui a sua licença do Microsoft 365.

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Um caso real: 50 caixas de correio migradas para o Microsoft 365

A União das Freguesias de Massamá e Monte Abraão escolheu a DataRoad, por concurso público, para migrar cerca de 50 caixas de correio para o Microsoft 365 (Exchange Online). O projeto incluiu a transferência integral de emails, estrutura e dados, e a reconfiguração dos postos de trabalho e dos telemóveis, com validação no fim.

A lição: uma migração é o momento certo para deixar a segurança definida de raiz. Configurar 50 caixas de correio uma vez, com as regras certas, custa muito menos do que corrigi-las uma a uma depois de um incidente.

Por onde começar amanhã

Confirme que todas as contas — incluindo as partilhadas e as de administração — têm autenticação multifator. Peça a lista de reencaminhamentos ativos: qualquer regra para um endereço externo que ninguém saiba explicar é um alarme. Verifique em que modo está o DMARC do seu domínio, escreva a regra de confirmação por telefone e marque uma sessão para treinar as equipas contra phishing.

Perguntas frequentes

O Microsoft 365 não tem já proteção de email incluída?

Tem, e é boa para spam e malware conhecidos. Não trava emails legítimos enviados de contas comprometidas nem pedidos de pagamento bem escritos. Essas falhas fecham-se com configuração (autenticação multifator, reencaminhamentos, SPF, DKIM e DMARC) e com regras internas.

Preciso de comprar outra ferramenta de segurança de email?

Nem sempre. Em muitas PME, o maior ganho vem de configurar bem o que a licença já inclui. Ferramentas adicionais fazem sentido depois dessa base, consoante o risco e o setor.

Como sei se o meu domínio tem DMARC?

Pode pedir ao seu fornecedor de IT a leitura dos registos SPF, DKIM e DMARC do domínio. Se o DMARC não existir ou estiver apenas em modo de observação, qualquer pessoa consegue enviar emails que parecem vir da sua empresa com menos obstáculos.

Um colaborador introduziu a palavra-passe numa página falsa. O que fazer?

Mude a palavra-passe de imediato, termine todas as sessões ativas, confirme que a autenticação multifator está ativa e reveja as regras da caixa de correio e os reencaminhamentos criados nos últimos dias. Avise a contabilidade para suspender pagamentos com alterações recentes de IBAN.

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Fontes

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